A Dialética de Sangue do Coronelismo Gaúcho e a Consolidação da República Velha
A Dialética de Sangue do Coronelismo Gaúcho e a Consolidação da República Velha
O embate entre Maragatos e Chimangos transcende a mera rivalidade regional do Rio Grande do Sul; ele constitui o núcleo duro da crise de consolidação institucional do Estado brasileiro na transição do Império para a República Velha. Essa fratura ideológica e paramilitar — cujo ápice ocorreu na Revolução Federalista (1893-1895) e reverberou na Revolução de 1923 — opôs duas visões antitéticas de engenharia constitucional: o Presidencialismo Autocrático e o Federalismo Parlamentarista.
1. Gênese Ideológica e Enquadramento Doutrinário
Os Chimangos (Pica-paus / Castilhistas): Representavam a elite burocrática e urbana encastelada no PRR (Partido Republicano Rio-Grandense), sob a égide ideológica de Júlio de Castilhos e, posteriormente, Borges de Medeiros. Juridicamente, fundamentavam-se no Positivismo Ortodoxo de Auguste Comte. A Constituição Estadual de 1891 (redigida por Castilhos) institucionalizou uma quase-ditadura legal: hipertrofia do Poder Executivo, reconduções indefinidas do governante, controle estrito do aparato policial e centralização administrativa como garantias de "Ordem e Progresso".
Os Maragatos (Federalistas / Gasparistas): Liderados diplomaticamente por Gaspar Silveira Martins e militarmente por figuras como Gumercindo Saraiva. Reestruturados no Partido Federalista, congregavam a tradicional aristocracia pecuarista da fronteira (os estancieiros). Sob o ponto de vista programático, defendiam o parlamentarismo, a descentralização federativa real, a autonomia dos municípios e a limitação drástica do absolutismo ilustrado castilhista. O lenço vermelho (maragato) opunha-se diretamente ao lenço branco (chimango/pica-pau).
2. A Mecânica da Violência Institucional e a Degola
A práxis bélica desse conflito caracterizou-se pela guerra de movimentos rápidos (as colunas e corpos de cavalaria irregular) e pela ausência de aplicação de salvaguardas humanitárias básicas. O fenômeno jurídico-político da degola — a execução sumária de prisioneiros de guerra por degolamento — deixou de ser um excesso casuístico para se tornar uma política deliberada de intimidação tática e eliminação do passivo logístico de prisioneiros.
Sob o prisma sociopolítico, a degola refletia a privatização da justiça em um cenário onde o monopólio estatal da violência legítima era disputado palmo a palmo por generais de divisão e coronéis detentores de patentes da Guarda Nacional.
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